Sou adulta e acho que sou autista: qual médico procurar e como funciona o diagnóstico?

Muitas mulheres passam a pesquisar por um teste de autismo online após se identificarem com relatos de criadoras de conteúdo ou artigos científicos sobre a neurodivergência na maturidade. A suspeita na vida adulta costuma vir acompanhada de alívio e medo: o alívio de finalmente encontrar uma explicação para a sensação de inadequação histórica e o medo de não saber por onde começar a buscar respostas oficiais. O processo de diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em adultos possui particularidades técnicas e exige profissionais qualificados para diferenciar o autismo de outras condições psiquiátricas com as quais ele se confunde.

Qual profissional faz diagnóstico de autismo em adultos?

O diagnóstico de autismo é estritamente clínico e interdisciplinar. Não existem exames de sangue, mapeamento genético ou de imagem (como ressonância magnética) capazes de detectar o TEA. Os profissionais legalmente habilitados para emitir um laudo definitivo são:

  • Médico Psiquiatra ou Neurologista: São os profissionais médicos que avaliam os critérios diagnósticos baseados nos manuais internacionais (como o DSM-5-TR) [1] e emitem o laudo médico formal com a respectiva Classificação Internacional de Doenças (CID).
  • Neuropsicólogo: É o psicólogo especializado na avaliação das funções cognitivas, comportamentais e emocionais. Embora não emita o laudo médico final sozinho, o relatório neuropsicológico é a ferramenta mais robusta e detalhada para subsidiar a decisão do médico, mapeando o perfil de comunicação, sensibilidade e flexibilidade cognitiva da paciente.

Como funciona o processo de avaliação na prática

Uma avaliação séria de autismo em adultos não se resolve em apenas uma consulta. O processo costuma durar de 4 a 8 sessões e envolve etapas estruturadas:

  1. Anamnese e Histórico de Infância: O profissional colherá dados sobre os primeiros anos de vida da paciente. Mesmo que a mulher use masking hoje, os sinais primitivos (atrasos na fala, dificuldades com amigos na escola, aversão a barulhos na infância) precisam ser investigados. Entrevistas com pais ou familiares antigos podem ser solicitadas, embora não sejam obrigatórias caso não haja acesso a eles.
  2. Aplicação de Escalas e Questionários: Uso de ferramentas validadas cientificamente para o público adulto, como o ADOS-2, ADIR, ou questionários específicos de camuflagem social (como o CAT-Q).
  3. Avaliação Psicológica: Investigação de possíveis comorbidades associadas, como depressão, ansiedade crônica, TDAH ou traumas de desenvolvimento.
  4. Devolutiva e Relatório: O profissional entrega um documento detalhado explicando o funcionamento neurológico da paciente, confirmando ou descartando a hipótese de TEA e sugerindo as intervenções necessárias.

O valor do diagnóstico após a maturidade

Muitas pessoas questionam a utilidade de conseguir um laudo de autismo após os 30 ou 40 anos, argumentando que “já aprenderam a viver assim”. O diagnóstico tardio não busca uma cura, mas sim validação psicológica. Ele permite que a mulher ressignifique seu passado, perdoe suas limitações, abandone a culpa por não se ajustar aos padrões neurotípicos e passe a estruturar sua vida respeitando seus próprios limites biológicos. Além disso, o laudo confere o amparo legal necessário para acessar direitos e adaptações garantidas por lei.

Referências Bibliográficas

  1. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  2. GOULD, Judith; ASHTON-SMITH, Jacqui. Missed diagnosis or misdiagnosis? Girls and women on the autism spectrum. Good Autism Practice (GAP), v. 12, n. 1, p. 34-41, 2011.
  3. DUNYAK, K. J. et al. Misdiagnosis and diagnostic delays in women on the autism spectrum: A systematic review. Autism in Adulthood, v. 4, n. 2, p. 112-124, 2022.

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