O que é masking no autismo e como as mulheres imitam comportamentos para se ajustar

Introdução

O termo masking no autismo (ou camuflagem social) refere-se a uma estratégia de sobrevivência psicológica em que o indivíduo autista conscientemente ou inconscientemente esconde seus traços neurodivergentes. Embora tanto homens quanto mulheres recorram a essa técnica, pesquisas indicam que o público feminino utiliza o masking de forma muito mais intensa e refinada. Entender esse comportamento ajuda a explicar por que tantas mulheres sofrem caladas para atender às expectativas de uma sociedade neurotípica.

A definição de camuflagem social e masking no autismo

O masking pode ser dividido em duas estratégias principais: a supressão de características autistas e a imitação de comportamentos sociais. Na prática, a pessoa monitora ativamente cada gesto, tom de voz e movimento corporal durante uma interação para parecer o mais “normal” possível.

Para uma mulher autista, ir a uma entrevista de emprego ou a um jantar de família exige um esforço comparável ao de atuar em uma peça de teatro em tempo real. Ela precisa calcular o tempo de fala, lembrar-se de piscar, calibrar a altura da voz e suprimir qualquer desconforto sensorial causado pelas luzes do ambiente ou pelo barulho das conversas paralelas.

Mecanismos comuns: como as mulheres imitam interações?

A imitação social no autismo feminino funciona como um banco de dados comportamental acumulado ao longo dos anos através da observação rigorosa. As mulheres utilizam técnicas específicas para mascarar suas dificuldades de socialização:

  • Cópia de linguagem corporal: Observar a postura de mulheres populares em séries de TV, filmes ou no próprio ambiente de trabalho e reproduzir esses mesmos gestos.
  • Decoração de piadas e falas prontas: Memorizar frases padrão de cortesia para iniciar diálogos, evitando pausas desconfortáveis que exponham sua dificuldade com a comunicação espontânea.
  • Contato visual programado: Criar regras internas na mente, como “olhar nos olhos por 4 segundos, desviar o olhar por 2 segundos e sorrir levemente”.
  • Mascarar estereotipias (stimming): Reter o desejo físico de balançar as mãos ou pernas diante da ansiedade, substituindo por comportamentos invisíveis, como morder a parte interna das bochechas ou apertar os dedos dos pés dentro do sapato.

O esgotamento do masking: Autistic Burnout e crises

Embora o masking permita que a mulher autista consiga empregos, termine a faculdade e mantenha amizades superficiais, essa camuflagem contínua consome uma quantidade absurda de energia cognitiva. O resultado desse desgaste crônico é o chamado Autistic Burnout (esgotamento autista).

Ao chegar em casa após um longo dia de trabalho sustentando a “máscara”, a mulher comumente atinge o seu limite de tolerância biológica. Isso se manifesta através de duas reações clássicas de sobrecarga:

  1. Meltdown: Crises explosivas de choro, irritabilidade ou desespero causadas pela saturação sensorial e emocional.
  2. Shutdown: Um estado de desligamento total, onde a mulher se isola no quarto escuro, perde temporariamente a capacidade de falar ou interagir e precisa de horas ou dias de repouso absoluto para recuperar a energia.

O impacto na busca por direitos e suporte clínico

Um dos maiores problemas da eficiência do masking é que ele torna o autismo invisível para quem está de fora. Familiares, maridos e até profissionais de saúde costumam recusar a hipótese de TEA alegando frases como: “Mas você é tão inteligente, conversa bem e trabalha”.

Essa invisibilidade dificulta o acesso a direitos fundamentais. A mulher que camufla seus sintomas sofre com o esgotamento interno, mas encontra barreiras para conseguir um laudo médico adequado. Sem o diagnóstico oficial, ela perde a oportunidade de solicitar adaptações no ambiente de trabalho ou de acessar auxílios previdenciários e assistenciais quando o esgotamento a impede de manter sua autonomia financeira.

Referências Bibliográficas

  1. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  2. HULL, Laura et al. Gender differences in co-occurring conditions and social camouflaging in autistic adults. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 50, n. 11, p. 4187-4200, 2020.
  3. LIVINGSTON, Lucy A. et al. The cognitive and socio-emotional costs of managing autistic traits in adulthood. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 49, p. 4281-4292, 2019.

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